Quando dança a noite,
Ruge minha fome de amor
No quarto vermelho dos fundos;
Mas você tem dever de casa. Não vem.
Sonha a cabeceira da cama
Com gritos de acordar a madrugada.
Homens estão prestes a se realizarem
Através de um tal escolhido
(sabe lá por quais leis dionisíacas)
E você se insinua. Mas não vem.
Será que você sabe o que quer?
Se sabe, vê o que pede uma mulher?
O teatro das promessas me entedia.
Palavras quentes, deslizantes,
Que não me preenchem o útero
Que mal afagam a mente:
Preciso de mais pra me impressionar.
Se você quer ter uma mulher,
Seja seu homem;
Se quer enrolá-la
Seja, no mínimo, poeta.
Porque a mulher que trabalha
Estuda, se estressa, se espalha
E ainda tem cabeça pra esperar
Um homem que não sabe chegar
Vai acabar preferindo se encontrar
No colo de outra mulher.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
sábado, 26 de fevereiro de 2011
“Ando devagar porque já tive pressa...”
Almir Sater
Antes se chamavam nômades, hoje se diz “mochileiros”: não é de hoje a necessidade que o ser humano tem de se movimentar em direção ao desconhecido, abrindo mão de seu próprio conforto e estabilidade para tanto. A saudade é pros que ficam, porque quem vai é forçado a não olhar pra trás. Ir embora pode se tornar um vício, e não saber ficar pode ser quase tão grave quanto não conseguir partir.
Meus queridos andarilhos, foragidos de suas próprias estradas: consolam-se com a diversidade de suas fotos, com o espanto alheio, disfarçando o vazio com adrenalina. Deles havemos de captar a leveza, o jogo de cintura, o desapego às pessoas, mas também às coisas materiais.
Meus inesquecíveis andarilhos, eternos solitários: tenho a coragem de guardar cada um de vocês em mim, mesmo sabendo que jamais regressarão. Aperto no peito o desejo de que um dia vocês encontrem sua terra prometida, e finalmente descubram o que não vão achar em todas as suas voltas pelo mundo: o prazer quase proibido de ficar.
Pra um camaleão escorregadio, príncipe encantador num camelo: me enfeitiçou e foi embora, mas me ensinou seus feitiços sem querer. E me mostrou que é muito melhor ficar quando se sabe ir. Obrigada.
Almir Sater
Antes se chamavam nômades, hoje se diz “mochileiros”: não é de hoje a necessidade que o ser humano tem de se movimentar em direção ao desconhecido, abrindo mão de seu próprio conforto e estabilidade para tanto. A saudade é pros que ficam, porque quem vai é forçado a não olhar pra trás. Ir embora pode se tornar um vício, e não saber ficar pode ser quase tão grave quanto não conseguir partir.
Meus queridos andarilhos, foragidos de suas próprias estradas: consolam-se com a diversidade de suas fotos, com o espanto alheio, disfarçando o vazio com adrenalina. Deles havemos de captar a leveza, o jogo de cintura, o desapego às pessoas, mas também às coisas materiais.
Meus inesquecíveis andarilhos, eternos solitários: tenho a coragem de guardar cada um de vocês em mim, mesmo sabendo que jamais regressarão. Aperto no peito o desejo de que um dia vocês encontrem sua terra prometida, e finalmente descubram o que não vão achar em todas as suas voltas pelo mundo: o prazer quase proibido de ficar.
Pra um camaleão escorregadio, príncipe encantador num camelo: me enfeitiçou e foi embora, mas me ensinou seus feitiços sem querer. E me mostrou que é muito melhor ficar quando se sabe ir. Obrigada.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Lança-perfume
Já fui mulher de desfilar na rua. Hoje desfila em mim essa avenida amontoada de gente embriagada por um carnaval que ainda nem aconteceu.
Decadente. Vazia. Suja. Escura. Bobamente feliz. As crianças com suas espumas, que perturbam a minha visão (que já não quer se esforçar muito), as gargalhadas hipnóticas, os copos de cerveja que ameaçam minha blusa branca a todo momento, as cantadas molhadas, os confetes baratos ---- e eu. Eu e minha droga louca, que não há entorpecente maior que estar apaixonado no meio de uma avenida lotada, me movendo em um carnaval antecipado do qual a minha carne se esquiva, se torcendo toda pra não chorar.
Eu me embolo em mim. Parece que vou cair. Queria estar louca de conhaque, mas estou louca de amor – não sei como nem porquê. Num rápido flash onde a memória se confunde com o presente, a 28 de setembro é a Dias da Cruz dos meus carnavais de infância, das minhas alegrias doces e pueris. Passo a gostar dela. Meu desfile interno sai pra passear, e vejo minhas emoções pedindo licença, girando mais do que poderia o meu corpo fatigado de desejo não-correspondido. Um perfume me toma inevitavelmente – parece ar, mas é amor – e eu quase o pego com as mãos. Antes que eu o abrace, ele me abraça. E num delírio último, eu me desfaço no meio das ruas de Vila Isabel, tomada por uma Dias da Cruz imaginária, por uma vontade incontrolável, e por um lança-perfume inusitado que só pode ser você, meu amor.
Decadente. Vazia. Suja. Escura. Bobamente feliz. As crianças com suas espumas, que perturbam a minha visão (que já não quer se esforçar muito), as gargalhadas hipnóticas, os copos de cerveja que ameaçam minha blusa branca a todo momento, as cantadas molhadas, os confetes baratos ---- e eu. Eu e minha droga louca, que não há entorpecente maior que estar apaixonado no meio de uma avenida lotada, me movendo em um carnaval antecipado do qual a minha carne se esquiva, se torcendo toda pra não chorar.
Eu me embolo em mim. Parece que vou cair. Queria estar louca de conhaque, mas estou louca de amor – não sei como nem porquê. Num rápido flash onde a memória se confunde com o presente, a 28 de setembro é a Dias da Cruz dos meus carnavais de infância, das minhas alegrias doces e pueris. Passo a gostar dela. Meu desfile interno sai pra passear, e vejo minhas emoções pedindo licença, girando mais do que poderia o meu corpo fatigado de desejo não-correspondido. Um perfume me toma inevitavelmente – parece ar, mas é amor – e eu quase o pego com as mãos. Antes que eu o abrace, ele me abraça. E num delírio último, eu me desfaço no meio das ruas de Vila Isabel, tomada por uma Dias da Cruz imaginária, por uma vontade incontrolável, e por um lança-perfume inusitado que só pode ser você, meu amor.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Itabira, eu e a música do Chico
Me entreguei desarmada: redenção sem resistência, que eu não sou boba de resistir ao irresistível. Já que era Minas, eu poderia ter recitado os versos encachaçados de Drummond – sorvendo cachaça – e te fazendo aceitar que eu era, finalmente, aquela mulher que sabe o que dizer, mesmo que as palavras saíssem rodopiando do estômago até chegar a boca, passando pelo coração, que dieta eficiente pro corpo e pra alma é se apaixonar. Eu sequer sussurrei doçuras, deixando meu corpo reagir baixinho, quase mudo (o que seria quase impossível). Eu deixei meu pavão misterioso dormindo, enquanto a menina acordava com os passarinhos na janela, melodiando Corinne Bailey Rae...
É que eu não queria querer mais nada. Já me satisfaria sua eloquência de sentidos e trejeitos, doce maneira de calar meu verbo voador, ou o jeito que você tem de virar minha cabeça sem me tirar a paz. Nem poderia eu ousar algo além do nada vendo seu sorriso de quem não quer nada – que é a sua maneira de conseguir tudo – contrastando modernamente com seus olhos de azeviche – a poesia de um olhar desbanca palavras.
E eu, que não sei renegar vício de carne e osso sabendo que o tédio desfila por aí sob a proteção de nossas cansadas re(o)tinas, me peguei querendo viver dessa embriaguez que, por ser leve, parecia inofensiva, mas que logo impestiou os meus versos, meu travesseiro, meu violão. Traída pela minha poesia, achei de decidir: cansei de literatura.
Acho que vou fazer cinema.
É que eu não queria querer mais nada. Já me satisfaria sua eloquência de sentidos e trejeitos, doce maneira de calar meu verbo voador, ou o jeito que você tem de virar minha cabeça sem me tirar a paz. Nem poderia eu ousar algo além do nada vendo seu sorriso de quem não quer nada – que é a sua maneira de conseguir tudo – contrastando modernamente com seus olhos de azeviche – a poesia de um olhar desbanca palavras.
E eu, que não sei renegar vício de carne e osso sabendo que o tédio desfila por aí sob a proteção de nossas cansadas re(o)tinas, me peguei querendo viver dessa embriaguez que, por ser leve, parecia inofensiva, mas que logo impestiou os meus versos, meu travesseiro, meu violão. Traída pela minha poesia, achei de decidir: cansei de literatura.
Acho que vou fazer cinema.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Mentiras sinceras (sempre) me interessam
Eu sei que você já beijou garotos
Já dormiu na sarjeta suja
Já foi egoísta, instintivo
Cruel, subversivo
Nocivo à sociedade.
É verdade.
Mas é você querendo
É você podendo se sabotar
E pronto: eu acredito nas suas mentiras –
Nem é preciso disfarçar.
Te quero mesmo humano
Não me poupe amoralidades
E - por favor - não me poupe do clichê.
E assim a gente vai revezando:
Quando eu disser que te amo,
Você diz “eu amo você”.
Já dormiu na sarjeta suja
Já foi egoísta, instintivo
Cruel, subversivo
Nocivo à sociedade.
É verdade.
Mas é você querendo
É você podendo se sabotar
E pronto: eu acredito nas suas mentiras –
Nem é preciso disfarçar.
Te quero mesmo humano
Não me poupe amoralidades
E - por favor - não me poupe do clichê.
E assim a gente vai revezando:
Quando eu disser que te amo,
Você diz “eu amo você”.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Partida e sem porto seguro, é mais ou menos assim que a gente se sente no meio da estrada, depois de uns 2 ou 3 amores que caíram do céu feito pingo em poça d’água, e lá ficaram: armadilhas pros meus pés descalços, cheios de calos secos.
Partidas que não se superam, porque eu cansei de ir embora. Cansei de renovações, socos no estômago, dilúvios cerebrais, tempestades emocionais e textos técnicos.
Cansei do equilíbrio, da independência (a minha, a do Brasil, a do mundo), da paz. Cansei de tudo que dá trabalho. Cansei de trabalhar para ansiar pelo descanso.
Vou cancelar a terapia pra tomar banho de cachoeira todos os dias. Quando eu cansar de ser limpa, vou tomar um porre. Vou morar dentro do meu próprio abandono, me aquecer a partir do que me destrói. E torcer pra não ir embora. Mais do que ser corajosa para partir, quero ser humana: quero (saber) ficar.
Partidas que não se superam, porque eu cansei de ir embora. Cansei de renovações, socos no estômago, dilúvios cerebrais, tempestades emocionais e textos técnicos.
Cansei do equilíbrio, da independência (a minha, a do Brasil, a do mundo), da paz. Cansei de tudo que dá trabalho. Cansei de trabalhar para ansiar pelo descanso.
Vou cancelar a terapia pra tomar banho de cachoeira todos os dias. Quando eu cansar de ser limpa, vou tomar um porre. Vou morar dentro do meu próprio abandono, me aquecer a partir do que me destrói. E torcer pra não ir embora. Mais do que ser corajosa para partir, quero ser humana: quero (saber) ficar.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
"Mimar você"
Não quero a receita de um soneto
Pra te derreter nos meus versos.
Tampouco te provarei ma-te-ma-ti-ca-men-te
Que há outros, melhores e mais fáceis,
Que dia e noite me oferecem sóis enluarados:
Não há motivos pra querer só você.
Nem teria eu, tão complicada,
Motivos pra buscar palavras compostas,
Olhares cubistas, dupla personalidade
Quando me cabe bem a simplicidade
Do Nada.
Ah, não pretendo enfeitiçar meus quadris
Pra que você desaprenda dos outros...
Nem quero mergulhar no segredo
Dos seus silêncios mágicos
Para o que quero, anjo,
Dispenso orquestra, buffet,
Estrelas, roupa de gala.
Para o que quero, louco,
Anuncio nesse poema tão pobre,
Cheio de espaços inúteis:
Aqui estou nua. Crua.
Querendo te ganhar
Te ter
Só pra ser só sua.
Pra te derreter nos meus versos.
Tampouco te provarei ma-te-ma-ti-ca-men-te
Que há outros, melhores e mais fáceis,
Que dia e noite me oferecem sóis enluarados:
Não há motivos pra querer só você.
Nem teria eu, tão complicada,
Motivos pra buscar palavras compostas,
Olhares cubistas, dupla personalidade
Quando me cabe bem a simplicidade
Do Nada.
Ah, não pretendo enfeitiçar meus quadris
Pra que você desaprenda dos outros...
Nem quero mergulhar no segredo
Dos seus silêncios mágicos
Para o que quero, anjo,
Dispenso orquestra, buffet,
Estrelas, roupa de gala.
Para o que quero, louco,
Anuncio nesse poema tão pobre,
Cheio de espaços inúteis:
Aqui estou nua. Crua.
Querendo te ganhar
Te ter
Só pra ser só sua.
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